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Chuva longa de Verão

A sua cabeça está igual ao seu quarto Onde nada é aquilo do que vemos Sempre está aparentemente arrumado A excelência na perfeição de si mesmo O seu peito é um grande espelho da sua casa Tem a porta fechada a tudo que tens desprezado ou rejeitado Abre as janelas, espera ter asas e sorri pro nada Sem saber que a qualquer hora seu coração pode ser roubado E a sua alma, ah a sua alma... A sua alma é semelhante aos seus cadernos velhos Anota o que acha interessante e raramente está aberto Às vezes esquecemos para o que viemos Deixamos o resto da força que não recebemos de volta Gastamos tempo e energia com o que é alheio E na firmeza, há sempre algo que explode ou se esgota Às vezes recebemos sinais no que ouvimos, no que vemos E outrora, até no que dizemos Nos recuperamos e recarregamos o vigor ao que queremos Ao que desejamos e prometemos Reeditar ou retificar Cair, ressiguinificar Repintar, reinventar E aí sim, ressuscitar Às vezes demoramos muito para acord...

Quadro clínico, parto cíclico

Tem uma hora que a gente cansa de levantar bandeira branca Tem momentos em que paramos para analisar atitudes fúteis Tem dias em que as energias são sugadas e a mente se tranca Tem noites que você sente que seu estomago levou um chute Pesadelos intensos em uma escuridão passada em claro Dos que tentam sonhar acordados durante toda a tarde Já fracos, a anemia de quem costuma despertar cansado De onde vem força ao doce amargo de quem não sabe Quando a mente está frágil às vozes internas Imagina então o quão fraca ela pode estar para as externas Somos responsáveis e precisamos ser lanternas A luz no fim do túnel ou o caminho que liberta da caverna Só que somos tanto fonte de luz quanto de escuridão Somos uma espécie de trilha sonora Somos frutos de pensamentos em silencio ou canção Somos o ontem, refletidos no agora E de certa forma incertos, insetos parasitas de afeto E de mera reforma, repletos de méritos e deméritos Temos que nos preocupar com o que dizemos aos o...

Comum

Sem palavras pra expressar o que é Sem ter travesseiros para gritar Sem espadas para impor a minha fé Sem escadas, sem chão, sem ar Tudo parece tão pequeno Tudo parece tão imenso aqui dentro Tudo aparece, quero silencio Tudo aparece, quero sumir no sereno E queria estar sereno na verdade Mas o ódio de tudo me invade E até preferia quando era saudade Mas é tudo, o cinza da cidade Eu gosto da noite e das luzes distantes Estrelas no chão que vão se apagando aos poucos E eu gosto de me sentir mero figurante Das histórias que eu crio e de o todo papo de louco Mas com o tempo eu fui parando de criar E algo foi se perdendo em meus sonhos Então me perdi no que deixei de me tornar E mesmo assim eu continuo compondo Talvez são músicas que se perderam com o tempo Sem melodias, apenas as cicatrizes e os remendos

Luthier

Reafina e desempena Reconstrói, alinha e arruma Troca o que não presta Limpa os detalhe e reajusta Reafirma o que foi belo Embeleza o que não tinha mais valor Desempoeira o singelo Empodera no desflagelo do se impor As notas em seu timbre Os tons em seu selo Deixa de ser o simples Recebe o aconchego Mais zelo ao velho Mais belo do que o novo Mais apelo e afeto Mais tudo do que o todo Mas meu tudo Que foi renovado por um luthier Interno, fundo Externo o som com louvor, prazer E é nessas horas Que a minha poesia se renova Dessimetria, bordas Em curvas certas e retas tortas Minha voz nem mais se importa E apenas deixa a minha toada exposta Em mil perguntas sem respostas E uma vitória que veio de mil derrotas A madeira de tão lustrada, parece até mais verde agora Mas é veterana, não decrepita ou antiquada, é a Aurora

Abstrato em degradês de Cinza

Já foi quase morte como se a gente não tivesse vivido ou nem tivesse nascido Já foi pior, mas a gente reclama como se nunca tivesse aprendido Já foi sofrido e muitas vezes eu estive arrependido ou imerso em puro declinio E até o suicidio já foi nutrido no momento que me senti excluído Mas hoje vejo que a beleza é nada mais do que míope Tudo parece perfeito e tudo parece bem simples de longe Sei que todo sorriso tem seu preço, tem o seu requinte Em penalidade de alto custo a quem resiste ou se esconde Nós tememos a morte e até a sorte que temos E por isso nós sofremos, por isso nós nos arrependemos Mas é só com o tempo que vamos aprendendo Que é sempre mais de mesmo, é sempre um dia a menos É saber dar valor É fazer, dar sabor É caber no favor É trazer, ser calor É só observar a nossa volta para perceber que a realidade é cruel Que tem gente que está mais na merda do que você ou eu Não consigo acreditar na tal Palavra, eu nem sei se existe um céu Não consigo enten...

E eu (Libriano nato)

Obrigado vida Por toda loucura imposta Obrigado vida Por todos jogos e apostas Pode ser que quem impõe toda sua verdade Esteja de certo modo, vivendo alguma mentira Pode ser que todo esse medo da intensidade Venha de derrotas, de quedas, mas o jogo vira E eu estou de volta à ativa, de volta à pista Bem melhor do que ficar remoendo paixões antigas Transformando em cicatriz todas as feridas No recomeço da partida, onde acontecer foi a saída E eu que nunca voltei atrás na palavra tive a minha primeira vez Assumi que preciso de você E eu que de tanto orgulho em minha lua, libriano nato do talvez Entendi que preciso de você

Abalo sísmico

O nós na garganta agora transita entre o meu peito e meus pensamentos É que de tempos em tempos eu desabo em meus desabafos mentais E o pior é que eu nem sei se sou uma boa pessoa para me dar conselhos Me disfarço em passos dados e a respiração aparentemente em paz Mas eu me deito junto a demência emocional, como se fosse a primeira vez Como se nunca tivesse aprendido e tudo fosse um imenso ciclo obrigatório a ser repetido Percebo que a inteligência fica para uma visão mais externa, cheia de solidez Só que na real é a mais pura palidez, no claro, sentada de frente a uma janela, sem sentido Passam os dias e eu apenas busco a salvação desta angustia calada O olhar avoado, as mãos soltas como se tivesse recebendo soro em um consultório Passam nuvens e passam estrelas no reflexo de uma tela desligada O coração apertado, a coluna levemente torta de sentimento apático, pouco notório É essa confusão de saber que preciso de ajuda, mas espero que ninguém me note É como se fosse ...